1341
Arquivos Anteriores
crônicas e poesias selecionadas
Karen Idzi



17/01/2008 20:11

testa link

HELLTEC sistemas para locadoras
Karen Idzi | comentários(0)



17/01/2008 20:09

HELLTEC sistemas para videolocadoras
Karen Idzi | comentários(0)



19/04/2005 17:25
...


Karen Idzi | comentários(6)



05/04/2005 05:13
blog abandonado...
1º pq eu naum divulgo isso... Acho q há quase um ano não passo por aki...
2 º Tenho andado um tanto afastada dos livros, leituras em geral... q vegonha para mim dizer isto...
3º será q alguma alminha já passou por aki e leu algo? Deve ter passado anônima, sem comentar... Para sanar a dúvida, colocarei um contador de visitas aki, ok?
-> Ultimamente minha veia comunicativa (pouco batida esta expressão, mas tudo bem...) anda em alta... Tenho escrito mais do que o habitual. Será por estar em uma fase mais "up", de bem comigo, com o mundo e com as pessoas em geral? -Geralmente ocorre o contrário com pessoas normais...hehee. Costumam escrever em momentos de fraqueza interior, como forma de desabafo, válvula de escape, alguns como uma maneira de organizar as idéias... Há os mais variados motivos que podem levar alguém a escrever, claro que meu objetivo ao vir aki naum era entrar no mérito de listá-los, foi apenas uma tentativa de exemplificar o porquê de as pessoas normalmente escreverem quando não estão bem, ou escreverem maravilhosamente bem quando estão em períodos negros de suas vidas, heheh.
->Pretendo publicar alguns textos, poemas próprios por aqui... Mas é tão mais difícil publicar minha própria produção...Confesso q, apesar de ser cara de pau assumida, tenho um pouco de vergonha para fazê-lo...Vergonha não seria a palavra exata... Seria pudor, autocrítica, ou um perfeccionismo exacerbado e doentio?
->Pretendo ser mais assídua em relação à publicação de textos aqui. E desculpo-me pela lingugem coloquial e certos erros ortográficos decorrentes do uso desenfreado do msn...
->Críticas e sugestões serão bem-vindos.

Karen Idzi | comentários(6)



04/10/2004 20:40
Para que ninguém a quisesse

(Marina Colasanti)

Por que os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, na beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia a passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos. Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças e evitava sair. Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo-a que fluisse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras. Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.
Então trouxe-lhe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.
Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre um cômodo.





Karen Idzi | comentários(0)



04/10/2004 20:04
Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti




Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.



A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Karen Idzi | comentários(1)



04/10/2004 20:03
marina colasanti
Sexta-feira à noite

Os homens acariciam o clitóris das esposas

Com dedos molhados de saliva.

O mesmo gesto com que todos os dias

Contam dinheiro, papéis, documentos

E folheiam nas revistas

A vida dos seus ídolos.



Sexta-feira à noite

Os homens penetram suas esposas

Com tédio e pênis.

O mesmo tédio com que todos os dias

Enfiam o carro na garagem

O dedo no nariz

E metem a mão no bolso

Para coçar o saco.



Sexta-feira à noite

Os homens ressonam de borco

Enquanto as mulheres no escuro

Encaram seu destino

E sonham com o príncipe encantado.




Marina Colasanti





Karen Idzi | comentários(0)



04/10/2004 18:48
Eva

Eva

Luis Fernando Veríssimo



Na velha questão sobre a origem da humanidade, eu defendo o meio-termo. Um empate técnico entre Darwin e Deus. Aceito a tese darwiniana de que o Homem descende do macaco, mas acho que Deus criou a mulher. E nós somos a consequência daquele momento mágico em que o proto-homem, deslocando-se de galho em galho pela floresta primeva, chegou à planície do Éden e viu a mulher pela primeira vez.

Imagine a cena. O homem-macaco de boca aberta, escondido pela folhagem, olhando aquela maravilha: uma mulher recém-feita. Como Vênus recém-pintada por Botticelli, com a tinta fresca. Eva espreguiçando-se à beira do Tigre. Ou era o Eufrates? Enfim, Eva no seu jardim, ainda úmida da criação. Eva esfregando os olhos. Eva examinando o próprio corpo. Eva retorcendo-se para olhar-se atrás e alisando as próprias ancas, satisfeita. Eva olhando-se no rio, ajeitando os longos cabelos, depois sorrindo para a própria imagem. Seus dentes perfeitos faiscando ao sol do paraíso. E o quase-homem babando no seu galho. E, com muito esforço, formulando um pensamento no seu cérebro primitivo. "Fêmea é isso, não aquela macaca que eu tenho em casa."

Há controvérsias a respeito, mas os teólogos acreditam que quando Eva foi criada por Deus tinha entre 19 e 23 anos. E ela reinou sozinha no Paraíso por duas luas. E, instruída por Deus, deu nome às coisas e aos bichos. E chamou o rio de rio e a grama de grama, e a árvore de árvore, e aquele estranho ser que desceu da árvore e ficou olhando para ela como um cachorro, de Homem. E quando o Homem sugeriu que coabitassem no Paraíso e começassem outra espécie, Eva riu, concordou só para ter o que fazer, mas disse que ele ainda precisaria evoluir muito para chegar aos pés dela. E desde então temos tentado. Ninguém pode dizer que não temos tentado.






Karen Idzi | comentários(0)

Página 1 de 1